Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
A minha janela

Vivo numa sala. Quatro paredes, Tecto, chão, uma janela e uma porta. A maior parte da minha vida é vivida nessa sala, mas onde vivo mesmo é na janela que a minha sala tem. A janela com vista para o verde, as ruas cheias de pessoas, os prédios... a janela que me permite sonhar

com a vida do lado de fora desta sala.

Não passo a porta para lá porque não tenho motivos para o fazer...E enquanto não tiver sei que se atravessar vou-me arrepender de não ter ficado na sala a viver o sonho que a minha janela tem para me dar.




Sábado, 23 de Janeiro de 2010
indesistir

sou a noite que te apaga a luz

e cala a cidade para que durmas em paz

sou a voz que, a prosseguir, te seduz

enquanto a gravidade te puxa p'ra trás

 

feito destemido segues

com medo que o que não percebes

te deixe em farrapos

 

 

por mim continuas

a aventurar-te nas ruas

cheias de buracos

 

 

Vais continuar como é bonito!

mil vezes caíste e cairás mais mil

porque ao contrario do que é dito,

desistir é muito mais dificil




Sábado, 16 de Janeiro de 2010
caes e gatos

Há dois tipos de pessoas... e dois tipos de pessoas podemos ser!

Podemos ter a atitude canina ou a atitude felina. Uma atitude que é independente do facto de termos ou não noção da efemeridade ou do sentido da vida.

Podemos ser cães. Ver o tempo passar num absoluto tédio quebrado apenas por aqueles momentos em que os donos com quem temos laços ou outro alguém se aproxima. E aí Ladramos se forem maus, rebolamos se forem bons! Agitamos o nosso rabo em esboço de sorriso e deitamo-nos de barriga para cima a pedinchar por festinhas. E quando eles se vão embora voltamos ao tédio de ver o tempo passar.

Podemos ser gatos. Os gatos não pedem mimos e nem transparecem que gostam de festinhas. Podem brincar de vez em quando mas essencialmente a atitude é passiva. Como se inevitavelmente percebessem que não adianta abanar o rabo que no fim vai tudo dar ao mesmo. Mas contrariam esta ideia com aquela de que são livres e não se prendem a ninguém. E nessa ideia de liberdade se baseiam para passar o tempo tédio como se no final não fosse tudo dar ao mesmo.

Pelo texto dá para perceber a atitude com que me identifico porque falo nela na primeira pessoa do plural. No entanto invejo características da outra atitude que, na minha triste opinião, permite ludibriar a vida e gozá-la mesmo com a noção de que ela não tem assim grande sentido e no fim vai tudo dar ao mesmo.


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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
feliz aniversário

era um aniversário mas não mais um...

era o 21º mas mais que isso era o primeiro...

e foi no meu aniversário vinte e essencialmente um

número pelo qual tenho um gosto verdadeiro,

que tive um aniversário como mais nenhum...

quase tudo o que desejava por um dia inteiro,

quase... porque houve uma doida desconfiança

que acumulou quando já fugia o dia, ao ponteiro

algo que com mentiras queimei da lembrança

mas a verdade manteve-se sempre no cinzeiro




Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
two-of-kind.html

Concordo com todo o texto e faço dele as minhas palavras também!!
"Fruto, em muito, da nossa tendência incrível para o que eu posso designar por over-reflection."
e o mais engraçado é que vejo quase todos os defeitos como qualidades até... ou pelo menos também os consigo ver como qualidades! Lá está é aquela questão de vermos sempre o outro lado das coisas!
" Enchemos quem nos rodeia mas à custa do aumento do nosso próprio vazio." so true!
e digo mais, este vazio é vazio apenas porque temos imensas prateleiras que queremos preencher "...é arrumado numa das nossas infinitas prateleiras e seguimos em frente." porque não conseguimos para de pensar, "Vivemos aflitos. Raramente serenamos. Alguns conseguem encontrar formas de escapar à angústia do querer tudo…ontem"

e eu queria tanto encontrar algo que acabasse com esta angustia... algo que nao seja apenas "eterno naquele momento".




Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
Sarton, May Prepara-te para a Morte e Segue-me

«Nunca tive uma boa impressão da psiquiatria mas, ocasionalmente, imagino-me, quando estou deitada aqui na cama, falando para um ouvinte sábio e omnisciente, um médico das almas a quem posso dizer o que nem me atreveria a dizer a mim mesma sozinha. Da próxima vez que a Harriet me perguntar com quem estou a falar, vou dizer-lhe: « Com o meu psiquiatra, por isso o melhor é deixar-nos sós» Então terá a certeza de que enlouqueci. E talvez nem seja boa ideia. podemos tornar-nos loucos finginfo sê-lo, jáo pensei várias vezes. A fronteira entre a realidade e a fantasia é tãoi ténue neste lugar circunscrito, horrivelmente solitário. »

 

de Sarton, May Prepara-te para a Morte e Segue-me , Edições Cotovia, Lisboa , 1997

tradução de Marta Smith.




Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
recaiu

equilibrado e feliz, apanhaste-me deprevenido

eu agi inconsciente, pela força d'um sexto sentido

levado pelos teus movimentos,como uma mensagem subliminar

eu caí sem me aperceber e agora acordei a delirar..

 

mantenho-me ciente que és impossível

deve ter sido por isso que caí

agora vou-te usar pra ser insusceptivel

até esquecer este impulso que segui




Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009
navegando

o que há em mim de cabos
estao decerto desligados!
de tão grande serenidade
perante ainda maiores mudanças.
consciente de eterna saudade
continuo a viver de esperanças
que são agora gigantescas
comparadas ás anteriores
baseadas em paixões grotescas
e em fantásticos amores

barco inerte ás pancadas
depois de forte turbilhão
águas de tão calmas, paradas
terra conquistada em vão




Domingo, 15 de Novembro de 2009
viagem

 Encontras no comboio um toque de magia que não consegues perceber. A paisagem verde, os túneis, os vales, as planicies, as estações de comboio, os pequenos apeadeiros, o rio a correr lado a lado, os carris a cruzarem-se no horizonte... Uma das ttuas histórias de amor preferidas aconteceu num comboio! E um dos teus sonhos é mesmo correr as capitais e grandes cidades europeias de comboio e não há uma viagem de comboio que faças que não te recorde disso.


Estavas sentado no lugar 85, junto ao corredor, da carruagem 22. A paisagem verde debaixo de um céu cinzento acompanhava a velocidade do comboio que ocupava 4 horas da tarde de domingo. 5 filas à frente uns olhos castanhos doces captaram a tua atenção... e é claro que eu sei que não foi só o olhar que chamou o teu... aquele corpo, aquela carinha, pedia, exigia que enquanto não adormecesses atentasses nela. Quando os olhares se cruzavam regozijavas, sentias aquela sensação que só um olhar feminino consegue induzir. Estavas à espera que ela tivesse de mudar de lugar outra vez... sim já a tinhas visto passar no corredor e depois mais tarde sentar-se uma fila atrás de ti, mas do outro lado... por algum motivo ela sentou-se a estudar naquele lugar que não era o dela e quando veio a dona do lugar ao lado ela levantou-se e lá foi para aquelas 5 filas à tua frente. 5 pares de banco separavam-vos mas o compartimento para as malas por cima das cabeças era em vidro e o reflexo permitia uma visão completa da cara que mais tarde também se apercebeu de reflexo e por aí se trocaram alguns olhares... outros foram por cima e entre os bancos. Esperavas que aquele também não fosse o lugar dela e que mais tarde viesse o dono e aí dirigias-te na sua direcção e oferecias o lugar á tua frente vago pelo amigo que pela morte dum parente não fez a viagem. O dono nunca mais vinha, o lugar ao seu lado estava vago... 

Foste até lá num daqueles teus raros rasgos de coragem dentro dos vários rasgos de loucura. «Eu sei que já reparaste que te tenho estado a observar, eu gostaria de ir ao cinema contigo um dia desta semana.»

«Próxima estação Santarém» e ao som da notificação da voz masculina do comboio a tua cabeça descia da Lua e o lugar ao lado da menina já estava ocupado. Não desanimaste, pelo contrário! Ela agora retocava-se... já tinhas notado isso nela uma preocupação com a aparência que achas excessiva para o teu gosto. Nunca iria dar certo, mas também não querias que desse certo... mas ela também teria de querer que não desse certo, não queres magoar ninguém tal como não queres ser magoado. Gato escaldado da água fria tem medo, e agora o comboio estava parado em Santarém. Aquela cidade tem algo que te fascina, algo que te faz sentir em casa mas também não percebes porquê. Talvez porque o teu sobrenome é possível que venha dali. No entanto aquela estação de comboio é a única que não te fascina... a única e última vez que foste até Santarém de comboio deixou-te marcas que fez com que visses a linha do comboio como uma arma.

 

 

     - Ficaste a conhecer muito bem esta cidade? - soltava o meu companheiro de viagem acabado de acordar de um das sestas.

Por algum motivo minha alma gémea interior tinha adormecido e a minha atenção distraiu-se na tristeza de um rapaz uns anos mais velho que olhava o horizonte e segurava ,talvez o desespero, numa camada liquida que lhe cobria a retina e gerava um certo brilho... olhou-me rapidamente quando voltou do horizonte directamente para o telemóvel que segurava entre as mãos. Parecia esperar notícias...

Agora a minha alma sedenta procurava alimentar-se noutro olhar feminino, que também já se havia cruzado com o meu, sentado ao fundo da carruagem na outra fila de bancos no lugar do lado do corredor. Tinha entrado em Pombal e tinha estado a falar com um amigo. Esta não me fez sonhar sequer com uma abordagem... era mais simples, cabelo preto liso naturalmente preto, se se pintava não era de forma que se notasse. Aqueles olhos escuros eram muito mais bonitos que os anteriores acompanhados por pinturas e cabelo encaralocado com madeixas artificialmente loiras. Ali estava algo sério, que podia dar certo... algo que aparentemente encaixava nos teus requisitos e que por muito que não quisesses envolver-te sabias que isso ia acontecer... com medo disso nem te deste ao luxo de deixar a mente viajar.




Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
levanta-te!

-Não me aventuro...

Nem pareço jovem!

-Falta-te coragem?

-Acho que tenho a mania que sou puro!

Sonho com algo verdadeiro,

uma felicidade eterna!

- Não podes ter uma mentalidade moderna

enquanto esperas algo certeiro?

- Talvez tenha medo do erro...

- E não tens medo de ficar perro?

- Tenho, mas tenho menos.

- E não temes que eterna seja a espera?

- Isso acho que todos tememos...

- Dá-me uma resposta sincera,

Não rodeies mais...

Conta-me, Porque não cais?

- ... porque .... ainda não me levantei...




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